Quatro histórias e um destino: A superação

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Quatro histórias e um destino: A superação

A palavra sonho aparece espontaneamente na fala de Severino Claudino Filho, Elizabeth Gomes de Moraes, Bruno Roberto Flórido Dutra e Simone Rezende Ramos. Mas as coincidências entre eles não param por aí. Em comum, esses quatro moradores do Estado do Rio têm a capacidade de superar dificuldades da vida e seguir em frente. Mas, como cada um deles conta, mudanças para melhor só ocorrem quando há empenho para alterar a trajetória.
– A oportunidade, para quem quer, existe – diz Severino, que, apesar de cumprir pena por homicídio, está se preparando para ser empresário assim que for beneficiado pela condicional.
As histórias publicadas nesta página, que podem servir de inspiração para muita gente, mostram que os seres humanos têm potencial de crescimento, mesmo diante de uma adversidade.
– Estudos revelam que a resiliência, capacidade de superar $áculos e voltar à qualidade satisfatória de vida, pode ser aprendida e operacionalizada sem negar evidentemente a dor e o sofrimento. Geralmente essas pessoas estão abertas a novas experiências, melhoram a relação familiar, desenvolvem a religiosidade, descobrem força para superar adversidade e ter coragem, honestidade e perseverança – diz o psicólogo e doutor em neurociências e comportamento Julio Peres, autor de “Traumas e superação”. BRUNO ROBERTO FLÓRIDO DUTRA, 29 anos
Um acidente de moto, há 11 anos, deixou Bruno Roberto Flórido Dutra paraplégico. Ele, que na época se preparava para o vestibular, passou quatro meses internado e perdeu as provas. Sua vida acabou estacionada, até ele se casar, há três anos, com sua fisioterapeuta; começar a jogar basquete; trabalhar e, mais recentemente, fazer parte da equipe de conscientização da Lei Seca:
– Na época do acidente não tinha muitos lugares adaptados. Passei oito anos dentro de casa, meio que fugia da vida. Até que chegou a hora de ir para a rua e as coisas foram acontecendo. Sou de uma família que tem condições financeiras, pude me tratar, fiz fisioterapia, mas nada disso adianta se você não faz nada. Essa é uma atitude bem pessoal, vai de cada um encarar o problema de frente ou não. E eu sonhava em retomar a vida. Quando voltei a estudar, fiz cursos de informática, hoje trabalho na área. À tarde treino basquete e foi na Andef, em Niterói, que fui chamado para o projeto da Lei Seca. Queriam voluntários com esse perfil de álcool e direção. De cara aceitei. Hoje sou contratado, vou aos bares à noite conversar. Tem gente estressada, mas as pessoas reagem com bom humor, querem saber quanto podem beber. Se eu não tivesse sofrido o acidente, talvez estivesse sendo parado nas blitzes hoje em dia. ELIZABETH GOMES DE MORAES, 45 anos
História boa é aquela bem contada, costuma dizer Elizabeth Gomes de Moraes, cuja trajetória poderia virar roteiro de filme. Mãe de quatro filhos, “aos trancos e barrancos” ela chegou ao ensino médio, mas parou de estudar para cuidar da família. Há quatro anos, no entanto, quando começou a trabalhar como faxineira, resgatou um velho hábito dos tempos de colégio: o da leitura. Funcionária da Secretaria estadual de Cultura, ela lia livros no banheiro durante a hora de descanso e sua atitude, silenciosa, ecoou entre os diretores da instituição, que deram a ela a oportunidade de trabalhar na biblioteca-parque de Manguinhos, no atendimento ao público:
– Estava lendo no banheiro quando ouvi falar que ia abrir a biblioteca. Perguntei se poderia trabalhar aqui, é perto da minha casa. Eu me ofereci para a limpeza, mas disseram: você vai trabalhar, sim, mas como auxiliar de biblioteca. Se eu não tivesse aquele comportamento, talvez nada disso aconteceria. Agora sonho escrever um livro, um romance. Um dia vou fazer isso e a tarde de autógrafos será aqui, na biblioteca. Quero mostrar que vale a pena acreditar num sonho. Quero concluir os estudos, fazer letras ou biblioteconomia. Hoje sou exemplo para os meus filhos. Já li uns 25 livros só este ano. Gosto de Machado de Assis, Sidney Sheldon, Nora Roberts. As pessoas me perguntam se o livro é bom, pedem indicação. Isso é muito gratificante. A lição que tiro disso tudo é não desistir. SEVERINO CLAUDINO FILHO, 38 anos
Acordar às 5h; trabalhar das 7h30m às 16h30m; pegar a filha na escola; ajudá-la com o dever do colégio e, às 22h, estar na Casa do Albergado Crispim Ventino, em Benfica, para dormir. Condenado a 27 anos de prisão por homicídio, Severino Claudino Filho já cumpriu 17 anos da pena, hoje está em regime semiaberto e, há quatro anos, trabalha no projeto Replantando Vida, da Cedae, na área de reflorestamento. Com a experiência adquirida, montou sua própria empresa, que entrará em atividade em poucos meses, quando for beneficiado pela condicional:
– Eu era comerciante do ramo de carnes, tinha família, filho. Mas tudo aconteceu. Há quatro anos tive a oportunidade de entrar para o projeto, levantei a mão e disse: eu quero isso. Fiz curso de reflorestamento na Universidade Rural, já ajudei a cobrir a área que margeia o Rio Macacu. Esse agora é meu projeto de vida. A oportunidade, para quem quer, existe. Hoje já posso acreditar que uma ideia, antes impossível, pode tornar-se realidade. E quando você consegue isso, torna-se um alvo, outras pessoas também querem chegar lá. Agora estou indo para o regime aberto e, em breve, estarei em condicional. Vou tocar minha empresa, na área de planejamento e execução ambiental, que está encubada na Petrobras e tem assistência da FGV. Isso tudo faz parte de sonhos que fui construindo. Olho para o horizonte e vejo a sensação de derrota tornar-se realização e glória. SIMONE REZENDE RAMOS, 34 anos
Foi o marido de Simone Rezende Ramos que a chamou para voltar aos estudos, no ano passado. Ele acabou desistindo, mas ela concluirá o ensino fundamental no fim do ano, juntamente com o filho mais velho, depois de ficar 20 anos longe da escola. Aluna do Colégio Estadual Francisco Portela, em Natividade, no interior estado, Simone participou do Projeto Geração Futuro, da Secretaria de Educação, ficou entre os melhores alunos da rede e ganhou um laptop.
– Sempre quis estudar. Esse era e é meu maior sonho. Quando meu marido falou em voltar à escola, era o empurrão que faltava. Quando criança, morava com meus avós em Porciuncula. Comecei a trabalhar com 7 anos, era babá. Trabalhei em Macaé, no Rio. Com 14 anos, meu avô ficou muito doente e não voltei mais para o colégio. Hoje trabalho num asilo, na lavanderia, mas faço de tudo um pouco. É um trabalho muito digno. Quem sabe um dia faço um curso de enfermagem? Tenho muita vontade de ser alguém. Nunca tive nada. E o que tenho hoje é porque sempre corri muito atrás. E nunca é tarde para recomeçar. Tenho dois filhos, o mais velho também ganhou o laptop. Isso ajudou a unir mais a família, ele me ensina a usar o computador. Nunca poderia imaginar que um dia teria tudo isso. Agora vou até onde me permitirem. Faculdade ainda é um sonho distante, mas não penso em parar de aprender. O futuro a Deus pertence.